| Login | Crie o seu Jornal Online FREE!

Infonline Chopotó!
Desde: 13/04/2009      Publicadas: 92      Atualização: 15/11/2011

Capa |  Artesanatos e outras artes  |  Cadastramento de notícias  |  Cipotânea - Fatos & Fotos  |  Congada  |  Descobertas  |  economia  |  Escolas  |  Espaço e ideias  |  fatos & contos  |  História da Regiäo Xopotó  |  Mande sua notícia  |  Política e Projetos!  |  Reconhecimentos geografia etcs


 Espaço e ideias

  30/08/2009
  0 comentário(s)


TROPAS E TROPEIROS

A tropa era preparada com cuidado por gente prática, porque cumpria não forçar a alimária, não exigir o mínimo além de suas forças. Rigorosa era a disciplina. Um conjunto de cuidados, tratamento das cavalgaduras, precaução com as ervas venenosas, alem do zelo com a carga e valores.

Os tropeiros conheciam perfeitamente as rotinas para aproveitar, da melhor forma possível, o esforço da ramagem. Inúmeras rotas, de grande fôlego, foram por eles percorridas a passo, e várias são na Mata as aldeias nascidas das paradas para repouso.

Eram facilmente reconhecidos pelas atitudes e vestuário. Negros, mulatos e brancos acostumados, desde cedo, a caminhadas longas no regime comedido. Delgados, magros, observou Saint-Hilaire, andavam descalços, com grandes passadas. Coberta a cabeça com um chapéu de pala estreita, de forma bem alta e arredondada, usavam a jaqueta de tecido grosseiro de lã e camisa de algodão, cujas fraldas flutuavam sobre calças do mesmo tecido. Próximos à Mata, em 1819, encontrou-os o cientista. No caminho do rio Preto viu tropas carregadas de mercadorias."Os bois eram enviados à capital pelos mercadores do sudoeste da província mineira, que os compravam nas fazendas. Esses mercadores confiam integralmente a direção de um rebanho de bois e a venda desse gado a homens que se chamam capatazes e que são muito bem pagos. 0 capataz tem sob as suas ordens os boiadeiros, e cada um destes é encarregado de conduzir vinte cabeças; não se obrigam esses animais a caminhar mais de três léguas por dia, mas até o seu destino não se permite que repousem, enquanto é hábito fazer-se caminhar todo o dia e deixar pastar no dia seguinte o gado que se conduz do sertão oriental de Minas à cidade da Bahia." 108

Péssimas as comunicações, mormente na estação das chuvas, não se detinha senão para o descanso. Afonso Arinos deixou-nos numa de suas paginas a descrição do burburinho da parada. "As sobrecargas e os arrochos, os bugais, a penca de ferraduras, espalhadas aos montes; o surrão do ferramento aberto e para fora o martelo, o puxavante e a bigorna; os embornais dependurados, as bruacas abertas e o trem-de-cozinha em cima de um couro; a fila de cangalhas de suadouro para o ar, à beira do rancho",109 denunciavam ao arrieiro que a descarga estava feita com a ordem do costume. Durante o repouso fazia-se a refeição. 0 cozinheiro, figura indispensável da tropa, punha-se ao trabalho, escolhendo o local para armar a trempe. "0 caldeirão preso à rabicha grugrulhava ao fogo; a carne-seca chiava no espeto e a camaradagem, rondando à beira do fogo, lançava às vasilhas olhares ávidos e cheios de angústia na ansiosa expectativa do jantar."110

A dieta do tropeiro pouco variava. Nela entrava necessariamente o feijão, seguido de farinha de mandioca, do toucinho, da carne-seca e do café. A carne-seca supria a falta de sal, de preço elevado, e da carne fresca. "Impunha-se a adoção duma dieta simples e nutriente. Nada melhor que o feijão substancioso, o toucinho salgado, para os chorumentos torresmos, a farinha de mandioca, para a gostosa farofa, a carne-de-sol, frita ou assada, e a couve picada.

E tome pimenta"111

A partida exigia uma série de providências e cautelas. "De madrugada, ia o camarada com o bornal de milho ou a cuia de sal buscar os animais no pasto ou no encosto, onde haviam sido soltos. Nas primeiras noites, para evitar que 'puxassem para trás' pelo hábito de voltarem às suas querências, ficariam peados, quando o campo não fosse fechado ou seguro. No fim de dois ou três dias, alongando-se a viagem, amadrinhavam-se em torno do cincerro e assim o campeiro via sua missão facilitada." 112

0 rancho é uma dádiva da tropa. Lá, onde se detinha para bivacar, o tropeiro encontrava o abrigo para a dormida, o lugar da refeição frugal, o ferrador, às vezes entendido em animais, espécie de alveitar ou veterinário. Era o pouso. Consistia, segundo a descrição de Saint-Hilaire, num longo telheiro coberto, tendo à frente, por vezes, a varanda e portas de madeira ou pilastras de tijolos. Luccock descreveu-os na província do Rio de Janeiro no primeiro quartel do século passado.113

Media o rancho pouco menos de 5 mil pés quadrados. Os burros iam chegando; após a descarga, os volumes maiores e menores eram arranjados cuidadosamente. As cangalhas também se arrumavam lá fora, uma por cima da outra, mas em ordem. As cilhas, dependuradas, tudo disposto, em suma, de modo que se pudesse encontrar com facilidade. Além da fileira de cangalhas, punha-se a lenha e fazia-se o fogo. Era cozinha provisória. Descarregados os animais, juntado o feijão com torresmo e farinha, seguia-se a sobremesa de rapadura com melado e café fumegante servido em cuité.

Só então as violas começavam:

Maria, por caridade,

Não ama tropeiro, não.

Tropeiro é home bruto,

Bicho sem combinação.

Maria, escute o conselho,

Sossega seu coração.114

Na madrugada, aparelhada a tropa, o tocador puxava a madrinha para a frente, e ao cabo de algumas horas novamente se encaminhava para as trilhas em busca de seu destino. Andava metade do percurso até o meio-dia e pela tarde até o crepúsculo, completando a média de cinco léguas. Para o repouso, desarreavam à beira de uma aguada, quando as energias eram outra vez refeitas.

As povoações ou pequenos núcleos recebiam-na com alvoroço. Ao bimbilhar dos guizos e dindilhar dos cincerros, "as moças e os curiosos corriam para as janelas, a ver passar a comitiva, que avante desfilava, sacudindo em trote batido as canastras de couro tacheadas de latão."115

0 tropeiro desempenhou na Mata papel complexo de bandeirante, mercador, conselheiro e capitalista. Em regra, participava da elite da província. 0 negócio exigia, para o bom êxito, recursos e instrução, tino e boas relações. A circunstância do meio de vida possibilitava a imagem de homem bem informado que, em suas andanças, conhecia todo o Pais. Passava naturalmente a conselheiro dos lavradores, pessoa de confiança para as compras na Corte. Era um mensageiro da civilização, no dizer de Calógeras. No tempo em que raros jornais circulavam, a tradição oral valia por meio quase único de contato com os acontecimentos do litoral. Coisa muito semelhante ao papel que, na Idade Media, desempenhavam mercadores ambulantes ou os trovadores.

TROPAS E TROPEIROS

Os TROPEIROS NA MATA são os mesmos do Centro e do Sertão. Gente indômita a cruzar os caminhos pelo Pomba, pelo G1ória, pelo Doce e Manhuaçu, No período minerador, transportavam o ouro ao litoral, regressando com mercadorias de toda a espécie. Revela o movimento nos portos fiscais que a capitania produzia apenas 10% das necessidades de seus habitantes. Tudo se resumia na exploração aurífera, dependendo pois dos muares a sustentação da indústria extrativa.

Posteriormente, com o retorno à lavoura, interligaram-se por todo o território. Em suas caminhadas. percorriam o Centro e o Sul, o Sertão e o Leste. E apesar das ferrovias, construídas selvas a dentro, muitas regiões, ate a década de quarenta de nosso século, contavam com um único transporte - a tropa. As bestas de cangalhas, as mulas de cargas percorriam léguas e léguas, vadeavam os rios, arranchavam nos caminhos. Palmilhando as veredas que os índios abriram em séculos de vida agreste, o tropeiro violava a mataria, travando conhecimento com os lavradores que ermavam nas solidões. 0 terçado desbastava a pi- cada, deixando o sinal de passagem nas clareiras. 0 casco da alimária transformava os caminhos, o rumo da récua baixava o nível do trilho, alterando-o em valo. Crescia a lama, nela se atolavam as bestas carregadas. 0 pântano estendia-se, às vezes, interminável. Precários os trilhos, mal traçados, mal construídos, pois abertos a golpes de foice. Mas o destino, estradado pelo esforço, pelo conhecimento da terra, pela prática, tornar-se-ia afinal em estrada carroçável.

0 litoral era geralmente o retorno, com transporte de ervas medicinais e gado para o Caminho Novo ou para o Leste, atravessando a vau o Piranga e o Casca a fim de ganhar-se o território capixaba. Pelo Muriaé e pelo Pomba, atingem, por mil atalhos, o Paraíba, no lado fluminense.

No lombo das tropas, a Mata encaminha o açúcar, o fumo, o toucinho e o milho. Recebe na volta o sal de Magé. Em regresso, no arsenal, havia também armas e munições, botas e ferramentas para os homens. As sinhás encontravam veludo e seda, botinas de duraque e artigos de luxo. Ademais, havia algodão em tecido, o chá, bugigangas e mercadorias do Rio e Campos.

As tropas eram constituídas por mus, burros sobretudo. Formavam-se por lotes, cada um composto de 12 animais, inclusive a madrinha. À frente, caminhava o burro da guia. Era um muar ensinado, sem pose e cheio de cincerros a dindilhar e um número maior de guizos. A ele dirigia-se o tocador, aos gritos, orientando e ordenando. Seguia-lhe a madrinha, a égua vistosa, carregando cincerro silencioso, cujo toque só se fazia ouvir quando nas pastagens a tropa tinha outra vez de reunir-se para a caminhada.

A madrinha não era necessariamente a égua, mas os tropeiros a preferiam, por a considerarem mais respeitada pelos burros. 106 Marchava-lhe após o burro contra guia. Depois, em fila, os animais carregados.

A tropa mantinha a hierarquia das bestas e dos homens. 0 tropeiro raramente lhe seguia a caminhada. Era o dono, o patrão, e prendia-se a afazeres que o atrasavam ou o adiantavam. Quando acompanhava a tropa, pouco interferia na ordem. 0 comando pertencia, na prática, ao arrieiro. Sempre junto, montado em animal de sela, à frente ou na retaguarda, acompanha a passo o movimento dos homens e das bestas. 0 arrieiro era pessoa entendida em caminhos, animais, courama, veterinária e medicina. Sabia cortar crina, tirar travagem, e sua versatilidade no governo da tropa assemelhava-se à do comandante do barco em mar revolto. Entendia-se com o tocador, dava-1he ordens e com ele trocava as impressões para descobrir um roteiro ou escolher uma clareira.

Os burros eram amansados para a rude tarefa. Mister a resistência ao peso para as jornadas nas zonas mateiras, acidentadas e montanhosas. Longos e irregulares os percursos, subentendiam a jornada de pelo menos trinta quilômetros, suportando os animais, na maioria das vezes, a carga aproximada de quinze quilos. Impressionou-se Eschwege com o vigor dos muares, observando que julgara impossível, não raras vezes, atravessassem pântanos ou subissem e descessem escarpados rochedos. "A força de seus pulmões deve ser tão extraordinária quanto a de seus nervos e músculos, porque subiram a alta montanha de Mato Grosso (perto de Angra dos Reis), que avaliei ter no mínimo três mil pés de altura, em hora e meia, e isto continuamente em passo acelerado." 107


  Mais notícias da seção História - volta região Xopotó no caderno Espaço e ideias
21/12/2010 - História - volta região Xopotó - POr falar nisso estamos também organizando um artigo sobre os 300 anos de Cipotânea MG que foi fundada oficialmente no anno de 1711.
Não temos nenhum apoio público da iniciativa.Quem quiser nos enviar sua contribuição, o seu conto e relato será bem vindo!Abraços,Da Equipe....



Capa |  Artesanatos e outras artes  |  Cadastramento de notícias  |  Cipotânea - Fatos & Fotos  |  Congada  |  Descobertas  |  economia  |  Escolas  |  Espaço e ideias  |  fatos & contos  |  História da Regiäo Xopotó  |  Mande sua notícia  |  Política e Projetos!  |  Reconhecimentos geografia etcs
Busca em

  
92 Notícias